Stretto House | Steven Holl | 1992 | Texas, Estados Unidos

Fonte: www.stevenholl.com
Fonte: http://www.stevenholl.com

Começando a série de posts sobre os estudos de caso que selecionei para minha dissertação de mestrado, gostaria de falar um pouco sobre a Stretto House, projeto do arquiteto Steven Holl para uma residência unifamiliar no Texas.

Essa residência já é bastante conhecida entre as pessoas que começam a pesquisar um pouco sobre obras que exemplificam a relação arquitetura e música. Basta uma rápida olhada nos sumários de muitos trabalhos acadêmicos que tratam do assunto que logo encontramos algumas páginas dedicadas a explicar esse projeto. (Depois posso indicar em minha bibliografia quais são esses trabalhos).

Trecho da partitura Música para Cordas, Percussão e Celesta, de B. Bartók, 1936. (Fonte: Almeida, 2005)

E a “fama” desta casa não é por acaso. O próprio arquiteto afirma que utilizou como referência para o projeto a Música para Cordas, Percussão e Celesta (1936), uma obra do compositor húngaro Béla Bartók (1881 – 1945).

Essa música possui quatro Movimentos com claras divisões entre os instrumentos de percussão e as cordas.
O I Movimento é uma fuga, e por vezes ocorre o que os músicos chamam de Stretto, que – explicando bem simplificadamente – seria a sobreposição dos temas da fuga. Holl afirma que associou a forma geral da arquitetura da casa com os movimentos de sobreposição de um Stretto, criando também quatro seções para o edifício, e da mesma maneira que a música apresenta uma variedade em relação aos sons, a arquitetura trabalha com a luz, os materiais e o espaço.

“Este conceito musical, imaginei, poderia ser uma ideia para a fluidez da conexão entre os espaços arquitetônicos”. (HOLL in ALMEIDA, 2005, p. 33)

Esquema, vista e corte. Fonte: http://www.stevenholl.com

A Stretto House foi dividida em quatro zonas espaciais, cada uma delas possuindo sempre dois elementos materiais: um pesado, de alvenaria ortogonal e associado as percussões presentes na música; e um leve, referente a cobertura metálica curva e os panos de vidro, associados aos instrumentos de cordas.
Os elementos pesados se consistem em uma série de 4 blocos retangulares construídos em alvenaria (que poderiam também se associados com os as barragens de concreto presentes no riacho existente no local). Entre cada bloco, espaços com fechamento em panos de vidro e pedra, com tramas de metal que sustentam a cobertura, emoldurando a paisagem e a vista da água.
A planta é puramente ortogonal, mas os cortes e vistas têm ênfase nas curvas – exceto a casa de hóspedes onde isso é invertido, em analogia às variações de tema presentes também no primeiro movimento da obra de Bartók.
Ambos, Bartók e Holl, utilizaram da série Fibonacci como ferramenta principal para a formulação da estrutura e proporção de suas obras. (MARTIN, 1994)

Estou lendo e pesquisando bastante sobre essa residência e fazendo também as minhas análises… Depois escrevo um post sobre isso 😉

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SEÇÃO ÁUREA E SÉRIE FIBONACCI

Ao continuar com as observações da natureza, os Pitagóricos acabaram por descobrir os números irracionais e delimitaram os princípios das razões da seção áurea, que seriam razões harmônicas entre dois seguimentos. Essa proporção foi adotada desde a Antiguidade Clássica e continua sendo usada até os dias de hoje. (RASMUSSEN, 2002).

“(…) Diz-se que um seguimento de linha está dividido de acordo com a seção áurea quando é composto de duas partes desiguais, das quais a primeira está para a segunda como a segunda está para o todo. Se chamarmos às duas partes a e b, respectivamente, então a razão de a para b é igual à razão de a para a+b” (RASMUSSEN, 2002, p. 110).

O arquiteto húngaro G. Doczi descreve em seu livro “O poder dos limites”, que a fórmula da seção áurea pode ser então expressa pela equação a: b = b (a + b) e os valores arredondados em três casas decimais para a razão entre as maiores e menores partes da seção são os números 0, 618 e 1, 618. O retângulo de proporção 5:8 é o mais utilizado, pois esta razão é a que mais se aproxima desses valores, onde podemos observar a equivalência:
A:B=B:(A+B)=0,618…. ou B:A=(A+B):B=1,618…
5:8=8:(5+8)=0,615… ou 8:5=(5+8):8=1,62…
Obtemos razões próximas a seção áurea através das proporções das harmonias musicais.

Na arquitetura clássica, principalmente em relação aos seus templos, observamos facilmente proporções e equilíbrio. A arquitetura deveria mostrar aqueles ideais de maneira que as medidas dos edifícios gregos eram múltiplos ou submúltiplos do diâmetro médio das colunas – um módulo – o que faz com que a relação entre a parte menor e a parte maior seja a mesma entre a parte maior e o todo.
Observamos essas relações tanto na planta, quanto nas fachadas de vários edifícios clássicos, principalmente em templos como o Parthenon de Atenas (século V a.C.), que pode ser considerado um bom exemplo para a harmonia aplicada a um edifício da Antiguidade devido à precisão de suas medidas e das razões nele encontradas.
Neste caso, constatamos que as medidas presentes no templo referem-se tanto a harmonia pitagórica quanto ao retângulo áureo.
Em sua fachada, cabe um retângulo áureo deitado e suas colunas possuem altura igual a cinco vezes e meia a largura da base. O topo dos capitéis aproxima-se do ponto de ouro da altura total. Os eixos das duas colunas dos cantos mais a linha do chão e topo do entablamento formam dois retângulos áureos de √5.
As colunas possuem ritmos proporcionais que representam uma alternância de elementos fortes e fracos. As colunas frontais estão na razão de 3:4, correspondendo a um diatessaron ou intervalo de quarta musical. A planta baixa corresponde a dois retângulos áureos revelando um diapente, razão 2:3. (DOCZY, 1990).

Mais adiante, Leonardo Pisano Fibonacci formula a partir dos princípios da seção áurea, a Série Fibonacci. Através dela é possível obter uma série somatória de números inteiros, cada nova unidade formada pela soma das duas anteriores: 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55 etc., na qual quanto mais a série cresce, mais ela se aproxima da razão da seção áurea, já que qualquer número dividido pelo seguinte dá aproximadamente 0,618 e qualquer número dividido pelo seu antecedente dá aproximadamente 1,618.
Curiosamente essa razão pode ser observada também em quase todas as folhas e pétalas de flores e em várias outras formas orgânicas da natureza, assim como no próprio corpo humano.

A seção áurea nos sons harmônicos.  (Fonte: a partir de Doczy, 1990)
A seção áurea nos sons harmônicos. (Fonte: a partir de Doczy, 1990)
Parthenon de Atenas. (Fonte: www.pathwaysofhistory.com)
Parthenon de Atenas. (Fonte: http://www.pathwaysofhistory.com)
A proporção áurea na fachada frontal  e planta do Parthenon. (Fonte: a partir de Doczy, 1990)
A proporção áurea na fachada frontal e planta do Parthenon. (Fonte: a partir de Doczy, 1990)