Há uma obra musical que eu…

(…) Há uma obra musical que eu uso, não como metáfora, não como um som inspirador, mas uma obra que me fez perceber uma espécie de estrutura, e foi deste modo que eu empreguei a música em meu trabalho (…).

Daniel Liebeskind

SERIALISMO MUSICAL E DESCONSTRUTIVISMO ARQUITETÔNICO

De acordo com o historiador musical Markus Bandur, o sistema de módulos e malhas geométricas do Modulor define a teoria serial elaborada para a música nesse período, embora o serialismo tenha surgido primeiramente na música, com o compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874 – 1951).
Dentro do serialismo, Schoenberg desenvolveu o sistema conhecido como dodecafonismo, onde uma série predefinida de até 12 notas (uma oitava) seria usada em uma composição de maneira ordenada, criando uma organização para a música atonal e o controle compositivo, no que se refere ao encontro harmônico das notas. Cada uma das 12 notas deve ter o mesmo número de ocorrências em cada música, mas não precisam aparecer sempre na mesma ordem, podendo estar invertidas e transpostas, formando um sistema quase ilimitado de ciclos que evitaria a monotonia. Pouco tempo depois, o termo serial passou a determinar também comprimentos e dinâmicas dos sons, se expandindo para todos os elementos musicais. (BANDUR, 2001).
O serialismo foi responsável por evoluir a música para um fenômeno de eventos acústicos, criando um novo modo de composição expandido para todos os elementos musicais e, como explica Bandur, seus princípios revelam uma teoria unificadora das artes baseada na percepção humana.

O Modulor de Le Corbusier é uma importante teoria serial fora da música, pois seu sistema de medidas e proporções era usado de maneira racional e objetiva por todos os elementos da arquitetura, ou como ele mesmo definiu:

“(…) uma ferramenta, uma escala para se compor uma série de construções e também para se alcançar grandes edifícios – sinfonias com a ajuda da unidade.” (LE CORBUSIER, 1953, p.13).

Entre os paralelos de arquitetura e música referentes aos conceitos seriais, existem aqueles que trabalham com a analogia, quando a ideia central da construção compartilha elementos de uma composição. Porém, os princípios do serialismo são muito mais abstratos em arquitetura do que na música, ainda mais se lembrarmos das claras relações entre arquitetura e música observadas a partir da harmonia pitagórica.
A arquitetura do período moderno estava mais interessada em buscar uma linguagem pura e racional, valorizando o aspecto funcional dos ambientes, e para isso ‘se livrou’ da simetria e da repetição. Segundo Rabelo, consiste em uma arquitetura que valorize a relação de equilíbrio entre as partes, sendo que cada parte deve estar de acordo com a funcionalidade, o tamanho, a posição e a situação.
Muitas obras arquitetônicas desconstrutivistas podem ser relacionadas com o padrão serial musical no sentido estético, pois não somente evitam a simetria e a repetição, quebrando regras do uso de estilos e formas, mas também se afastam das características tradicionais e do revival historicista pós-moderno. O desconstrutivismo reverte a ordem e a hierarquia das dimensões das formas, e geralmente cabe ao usuário interpretar a obra. (Rabelo, 2007)

No Museu Judaico de Berlim, de 1989, o arquiteto Daniel Libeskind traz um exemplo de utilização de código serial para um projeto arquitetônico, de maneira que este guia toda a complexa composição de volumes, algo que ele mesmo afirma ter feito ao transformar a ópera inacabada de Schoenberg, Moses und Aron , em lógica construtiva. (LIEBESKIND, 2002)
A forma do edifício derivada de uma planta em ziguezague possui, além do significado religioso que remete a uma estrela de Davi distorcida, a intenção de organizar os espaços seguindo o código serial estabelecido, combinando elementos considerados importantes para o programa: subsolo, espaço interno, vazios, estrutura, janelas.
Libeskind, que também é pianista, já escreveu diversos artigos e deu algumas entrevistas sobre o que ele pensa a respeito dos elos existentes entre música e arquitetura, dizendo que os elementos que unem as duas áreas são o tempo e a matemática.

“Ambos são exatos, precisos, desenhados de certa maneira, e os desenhos, partituras musicais ou plantas arquitetônicas, podem fazer esse elo com a música.” (LIBESKIND, 2001, entrevista BBC)

Além disso, Libeskind usa a música de Schoenberg para representar espaços no interior do Museu Judaico, como é o caso do ambiente criado por ele chamado ‘O Vazio’. Este local possui relação direta com a passagem na ópera onde ocorre um grande silêncio dos cantores e da orquestra e depois somente uma voz falada pode ser ouvida.

“Quando estive estudando uma das partes do museu (Judaico de Berlin), percebi que ali o Museu deveria ser cortado por algo que não exatamente pertencesse a seu tempo, algo que chamei de ‘O Vazio’, que é tanto parte do museu quanto uma coisa aliena, já que ali não deveria conter nada puramente secular, puramente museológico. Imediatamente me veio à mente a conversação entre Moisés e Aarão, naquela incrível ópera de Schoenberg (…) E Moisés, já diante do final da ópera, definitivamente para de cantar e toda a orquestra entoa uma única nota (…) então Moisés fala, e há apenas a voz falada, sem canto, clamando por uma palavra, talvez a Palavra, aquela que não é musical. (…) Eu senti a necessidade de completar aquele reverberante senso de distância, implicado naquele intenso inacabado, naquele intenso aforismo o qual a música alcança naquele ponto do tempo, do mundo. Então eu empreguei o espaçamento daquele ritmo, daquela voz distanciada, daquele eco, nas proporções reais d´O Vazio do Museu Judaico. Usei um certo sistema proporcional, do qual boa parte advém da estrutura pensada por Schoenberg, e esta foi uma peça que não apenas influenciou minha arquitetura, mas que estruturou diretamente um particular espaço arquitetônico. (LIBESKIND, 2001, entrevista BBC)

Série da Suíte para piano Op.25, de Schoenberg, onde pela primeira vez foi utilizado o dodecafonismo e o padrão serial em música. (Fonte: www.paginadecultura.com.br)
Série da Suíte para piano Op.25, de Schoenberg, onde pela primeira vez foi utilizado o dodecafonismo e o padrão serial em música. (Fonte: http://www.paginadecultura.com.br)
Foto, trecho da partitura Moses und Aron de Shoenberg, planta, maquete e código serial do Museu Judaico em Berlim, de Libeskind, 1989. (Fonte: a partir de Bandur, 2001)
Foto, trecho da partitura Moses und Aron de Shoenberg, planta, maquete e código serial do Museu Judaico em Berlim, de Libeskind, 1989. (Fonte: a partir de Bandur, 2001)