DE RE AEDIFICATORIA | LEON BATTISTA ALBERTI

Logo nos primeiros séculos após Cristo os cristãos começaram a adaptar os antigos edifícios romanos para seus propósitos. As basílicas responderam bem às suas necessidades por representar um local de justiça e disciplina, e tinham por característica a simplicidade que desejavam para não distrair os fiéis. A música desse período foi caracterizada pela monofonia e era usada para acompanhar a liturgia cristã sendo chamada de monodia.

O período medieval entre os séculos XII e XIII foram marcados na arquitetura pelo ‘estilo românico’, na qual o foco é o espaço interno e sua aparência exterior é de um bloco intro-vertido e pesado. O organum é desenvolvido na música sacra, com a junção de uma segunda voz (Vox organalis) que improvisava a intervalos de quarta e quinta, enquanto a Vox principalis seguia com o canto gregoriano. Era o início da polifonia.

Com o ‘estilo gótico’, no século XIV, o edifício se torna cada vez mais vertical com o desenvolvimento dos contrafortes no exterior para transferir as cargas. Muito mais iluminado em seu interior, a escala é a da grandiosidade divida e o eixo simétrico é reforçado pelo ritmo dos pilares e arcos ogivais das catedrais. Durante esse período o canto passou a englobar três ou quatro vozes sobrepostas, se tornando mais complexo e a música obteve maior liberdade rítmica, com o aumento do interesse pela composição profana em oposição à sacra, em um movimento conhecido como Ars nova. (MICHELUTTI, 2003).

No renascimento, a arquitetura fazia parte do campo dos ofícios, junto com a escultura e a pintura, e a música ainda fazia parte do quadrivium da antiguidade clássica, junto da astronomia, da aritmética e da geometria. Foi nesse período que muitos artistas recorreram principalmente as teorias musicais como suporte compositivo.
Segundo o historiador de arte alemão Rudolf Wittkower (1901-1971), os arquitetos e artistas renascentistas usaram proporções correspondentes a intervalos musicais por meio de malhas modulares, mas eles não pretendiam traduzir a música em arquitetura. Faziam isso por causa da beleza que encontravam nas relações entre números inteiros. (WITTKOWER, 1971).

O conceito de beleza fazia referência à harmonia das proporções e se tornou um parâmetro essencial para a construção de novas obras. O arquiteto L. B. Alberti declarou sobre a beleza:

“(…) é a justa harmonia e a concordância entre todas as partes do todo de tal modo que nada possa ser adicionado ou retirado senão para pior.” (ALBERTI, 1999, p. 97)

Alberti escreve o seu tratado De Re Aedificatoria, que na realidade deveria ser apenas uma tradução com ilustração dos Dez Livros de Arquitetura de Vitruvius, o anteriormente citado De Architectura, visto que este era considerado complexo demais, escrito com uma mistura de grego arcaico e latim, e faltavam-lhe exemplos ilustrativos de obras edificadas.
Em contrapartida, ele escreve um novo tratado. Ao não se limitar a tradução encomendada da obra de Vitruvius, Alberti nos apresenta sua contribuição em relação a reflexões sobre a arquitetura.
Falava da música como princípio ordenador e dela derivariam ideais de proporção dos edifícios, seguindo critérios específicos. O arquiteto também foi influenciado por tratados musicais medievais como o De musica, de Boethius (480-525) e utilizou disso para constatar que ambas as artes (música e arquitetura) possuem um fundamento matemático comum. A partir disso faz uma analogia entre as proporções da arquitetura e da música.
Listando quais seriam as proporções mais agradáveis de acordo com a consonância e a harmonia musical, Alberti aplica essas relações a um quadrilátero. Para ele, o arquiteto deveria alcançar a correta relação entre os componentes principais de uma obra: números, proporção e posição – o que ele chamou de concinnitas. (RABELO, 2007)

Ao determinar três tipos de planos, curtos, médios e longos, Alberti relaciona intervalos musicais com módulos variados para as edificações para serem utilizados no comprimento, largura ou altura de uma obra e que garantem uma boa proporção quando observados. Apesar de ter produzido poucas obras arquitetônicas, podemos observar como isso ocorre na Igreja de Santa Maria Novella (1470), conforme exemplificado por Wittkower (p.41): toda a fachada pode ser inscrita em um quadrado que ao ser dividido ao meio, marca exatamente a separação entre o térreo e o primeiro piso (proporção 2:1, uma oitava). Este quadrado ainda pode ser dividido em frações cada vez menores e a repetição delas irá compor a fachada (entablamentos, pórtico e volutas), mantendo a proporção 2:1. O pórtico de entrada possui proporção 3:2 – uma quinta. A beleza da obra está na harmonia dessas proporções e na repetição desses elementos, ou melhor, das razões que surgem e das relações das partes com o todo, ilustrando um método de duplicação ou progressão de razões.

A arquiteta italiana Angela Pintore mostra em seu artigo (2004, p. 63) que Alberti tinha a intenção de provar que uma seqüência de retângulos proporcionais derivados de proporções originais poderia abarcar um grande número de possibilidades espaciais.

Basílica de Santa Sabina, 422, Roma, e exemplo de monodia cristã em trecho de Alleluja Dies Santificatum. (Fonte: www.fotopedia.com e Michelutti, 2003)
Basílica de Santa Sabina, 422, Roma, e exemplo de monodia cristã em trecho de Alleluja Dies Santificatum. (Fonte: http://www.fotopedia.com e Michelutti, 2003)
Basílica românica de Santa Maria Madalena, Vézelay, França, e exemplo de orga-num em trecho de Te Deum. (Fonte: Michelutti, 2003 e Grout e Palisca, 2007)
Basílica românica de Santa Maria Madalena, Vézelay, França, e exemplo de orga-num em trecho de Te Deum. (Fonte: Michelutti, 2003 e Grout e Palisca, 2007)
Catedral de Notre Dame de Paris, França e exemplo de música Ars Nova em trecho de Fuions de ci. (Fonte: Michelutti, 2003 e Grout e Palisca, 2007)
Catedral de Notre Dame de Paris, França e exemplo de música Ars Nova em trecho de Fuions de ci. (Fonte: Michelutti, 2003 e Grout e Palisca, 2007)
Diagramas analíticos da fachada da Igreja de Santa Maria Novella. (Fonte: a partir de Wittikower, 1971)
Diagramas analíticos da fachada da Igreja de Santa Maria Novella. (Fonte: a partir de Wittikower, 1971)
Relações nos planos de Alberti. (Fonte: a partir de Pintore, 2004)
Relações nos planos de Alberti. (Fonte: a partir de Pintore, 2004)
Combinações harmônicas possíveis pela seqüência de retângulos proporcionais. (Fonte: Pintore, 2004)
Combinações harmônicas possíveis pela seqüência de retângulos proporcionais. (Fonte: Pintore, 2004)

The Rule of these Proportions…

 The Rule of these Proportions is best gathered from those Things in which we find Nature herself to be most complete and admirable; and indeed I am every day more and more convinced of the Truth of Pythagoras`s Saying, that Nature is sure to act consistently, and with a constant Analogy in all her Operations: From whence I conclude that the same Numbers, by means of which the Agreement of Sounds affects our Ears with Delight, are the very same which please our Eyes and Mind. We shall therefore borrow all our Rules for the Finishing our Proportions, from the Musicians, who are the greatest Masters of this Sort of Numbers, and from those particular Things wherein Nature shows herself most excellent and complete.

Leon Battista Alberti (1407-1472).