A ARQUITETURA DOS SONS NO SÉCULO XX

Com base em historiadores de arte como Wittkouer, podemos dizer que até o século XIX existiram pelo menos dois princípios fundamentais que aliaram a composição musical com a composição arquitetônica:

– Seguindo leis de composição que são válidas para a arquitetura e para a música, tendo como base principal a matemática, a geometria, as proporções e as razões estabelecidas inicialmente por Pitágoras e seus discípulos, e que depois foram desenvolvidas em tratados de arquitetos, matemáticos e músicos, tendo como exemplo os templos da Antiguidade Clássica, algumas igrejas medievais, e muito da arquitetura Renascentista, nas Villas de Palladio principalmente.

– Seguindo leis analógicas, onde há semelhança entre conceitos compositivos, embora não seja feita uma referência direta pelo seu autor. No período barroco, tem-se um rebusca-mento arquitetônico e este aparece também nas peças musicais. No gótico, vemos uma maior verticalização nas obras religiosas (com as catedrais), e um incremento da música sacra, com o surgimento da polifonia, para alcançar mais facilmente os céus.

A partir do século XX, a composição deixa de seguir muitos dos conceitos de épocas anteriores, e isso é verificado em todas as artes, se expandindo para outros lugares do mundo que não só a Europa.
Na música, o sistema tonal até então adotado é questionado, abrindo espaço para compositores experimentarem a atonalidade, usando um conceito que já estava sendo explorado desde 1885, no prelúdio da peça Tristão e Isolda de Richard Wagner.
Na matemática, há o surgimento do estudo de geometrias não – euclidianas.
Na arquitetura, temos o avanço da tecnologia para o uso do concreto armado.

Mas, ao contrario do que parece, as comparações entre a arquitetura e a música nunca deixaram de existir e arquitetos e músicos de todo o mundo resolveram experimentar novas saídas para seus problemas. Esses novos conceitos aparecem agora de maneira mais subjetiva e experimental.
Hoje muitos arquitetos projetam sem levar em conta as razões e proporções das formas de seu projeto, por considerarem que a matemática e a geometria não devem fazer parte de processos inventivos como uma tarefa projetual, se esquecendo que a arquitetura é constituída também por ordem e relação. Segundo Rabelo:

“Na prática atual, as formas são desenhadas em croquis e, posteriormente, executadas em programas CAD que, efetivamente, realizam todo o trabalho de raciocínio geométrico”. (RABELO, 2007, p. 46)

Isso nos faz perceber que se a geometria e a matemática tinham um papel decisivo e fundamental na base do processo de composição musical e arquitetônico até o final do renascimento, hoje elas são postas em campos diferentes, principalmente no caso da arquitetura.
No século passado várias formas de composição arquitetônicas foram utilizadas, mas foi com os modernistas que, apesar da declarada ruptura histórica, muitos dos antigos princípios de proporção foram retomados e usados em diversos projetos.

Vale ressaltar que os pioneiros do modernismo estudaram em locais que seguiam o modelo de ensino beaux-arts, e que o rompimento do antigo sistema nessas escolas aconteceu aos poucos, tanto nas artes plásticas e na música, quanto na arquitetura.
Alguns artistas do início do movimento moderno criaram instalações com o objetivo de aliar e integrar as artes e gerar estímulos variados ao expectador, provocando diversas experiências sentimentais, sensoriais, acústicas e até físicas. A união entre peça musical e obra arquitetônica ocorre aqui como propósito desse movimento artístico e é tida de maneira subjetiva, visto que dependeria de fatores como o próprio tema da instalação.

Atonalidade em R. Wagner: Tristão e Isolda, Prelúdio do 1o Ato, compassos 1 a 11. (Fonte: www.atravez.org.br)
Atonalidade em R. Wagner: Tristão e Isolda, Prelúdio do 1o Ato, compassos 1 a 11.
(Fonte: http://www.atravez.org.br)
Um triângulo visto através das formas geométricas não-euclidianas. (Fonte: Abdounur, 2006)
Um triângulo visto através das formas geométricas não-euclidianas. (Fonte: Abdounur, 2006)

Publicado por

Agnes Del Comune

Architect, interested in arts and the creative process, along with music.

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